Três Minutos
Atualizado: 27 de fev.

Três minutos
Crônica de Jerusa Alves Furbino
“Três minutos para o embarque de mãe”, disse o aplicativo.
Fiquei olhando a palavra como se ela pudesse se corrigir sozinha. Mãe. Assim, sem sobrenome. Sem aviso prévio.
Três minutos.
É o tempo de um miojo. De uma música curta. Do sinal fechado antes de alguém buzinar. É o tempo de desistir de esperar. Também é o que o aplicativo calcula entre o agora e o encontro. Entre o que ainda respira e o que já não volta. Nesses três minutos, fiz o que faço sempre que a ausência se distrai: imaginei.
Estacionei. Ela levaria tempo para sair da calçada. Seguraria a porta com as duas mãos, calculando o próprio peso, como quem negocia com o corpo. Entraria rindo da própria dificuldade “envelhecer é difícil mesmo” como se a frase resolvesse alguma coisa. Pediria que eu desligasse o ar; sentia frio em qualquer estação, até nos verões de Valadares. Sentaria encolhida, frágil de um jeito que doía lembrar que aquela mesma mulher um dia foi força pura.
Eu responderia: “Bom dia.” E tentaria não parecer órfã.
Três minutos é pouco tempo para ressuscitar alguém. Mesmo assim, procurei por ela na rua de nome de flor onde eu aguardava. Olhei para as janelas, para os portões, para as varandas. Pensei, com uma seriedade infantil, que talvez o céu tivesse aprendido a usar aplicativo.
Tenho sonhado tanto com ela que, por um instante, quis que seu fantasma soubesse chamar Uber. Que soubesse digitar destino. Que soubesse escolher pagamento em dinheiro — ela nunca confiou em cartão.
O temporizador zerou.
A mãe do aplicativo apareceu. Era outra. Caminhava com firmeza. Entrou sem dificuldade. Não sentia frio. Falava ao telefone antes mesmo de fechar a porta. Sentou-se no banco de trás como fazem todos — sem saber que, minutos antes, aquele lugar tinha sido reservado para um impossível.
Conduzi-a ao destino indicado. Ela reclamou do trânsito, do calor, da vida. No final, disse “bom trabalho” com a cordialidade automática dos passageiros.
Respondi “obrigada” com a disciplina dos vivos.
Foram apenas três minutos.
Mas desde então, cada vez que o aplicativo anuncia um novo embarque, o coração acelera antes do carro. Ainda espero que, um dia, o endereço seja nenhum — e que ela entre devagar, reclamando do frio, como quem nunca partiu.






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